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março 25, 2007
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O APELO DE AERGIUS
E enquanto a 2ª temporada de Floribella não começa, que tal ler alguns textos de crítica cinematográfica?
Pois iremos publicar alguns textos marcantes do século XX, para que os possam ler ou reler, que é como quem diz, tornar a ler.
Por hoje fiquem com um texto publicado em Fevereiro de 1965, sobre o filme América América de Elia Kazan. Um texto que vale a pena recordar.

O APELO DE AERGIUS
AMÉRICA AMÉRICA
DE ELIA KAZAN
«L’Amerique! J’étais arrivé. C’est ça
Qui fait plaisir à voir après tant de
Sèches aventures. Ça remet comme un
Fruit dans la vie.»
Louis-Ferdinand Céline
Parafraseando Rilke, poderia dizer que um filme não é feito de sentimentos, mas de experiências, ou seja e para me ater a Blanchot que precisa o vocábulo, «contacto com o ser, renovamento de si próprio a esse contacto». Procura ideterminada, sem dúvida, mas em que os elementos vitais, cumprida a metamorfose da criação, à vida são devolvidos sob forma determinada, que é a da existência da própria obra.
Os primeiros planos de AMÉRICA AMÉRICA põem-nos perante aos luminosos montes de Aergius, na Anatólia, onde o sal é ouro da vida e sobre as populações gregas e arménias pesa o jugo otomano. O autor, como quem abre o álbum das recordações de família, propõe-se contar-nos a odisseia dos seus antepassados e, particularmente, de Stavros que emigrou para a América e, um após um, mandou vir todos os membros da família, excepto o pai que na terra de origem morreu. Antes de entrar em considerações de ordem geral sobre a obra de um autor que não só me é caro, como faço questão de colocar entre os grandes criadores do cinema americano, pese isso embora a certos precipitados e tardios defensores das virtudes ímpares do seu do seu classicismo, gostaria de ressalvar a profunda comoção que me causou a voz de Kazan, comoção que, aliás, assistiu à escolha do título para estas notas.
É que essa voz parece ligar-me num apelo, secreto e magoado, de raiz, às imagens da velha pátria e que a manifestar-se seria, caprichosamente, algo muito próximo de um lamento nostálgico pela Anatólia Anatólia. De resto, o tom do filme que, não raras vezes, no traz à lembrança o de certos romances de Gorki ou Panait Istrati ou até da infância do dito Máximo de Donskoi, não desmente a minha impressão inicial, antes a confirma, sobretudo na cena em que debruçado na amurada do navio, Stavros atira ao mar o velho fez, trocando-o pelo novo chapéu de palha e o seu olhar detem-se nas águas aonde se insinua a memória de um canto anatólio. E se é certo que Stavros persegue a imagem de uma América ideal, de uma terra prometida, apesar de apostar em possíveis e não em absolutos, não será lícito aventar que o autor se sente por demais a «leste do paraíso?»
AMÉRICA AMÉRICA é até à data o projecto mais ambicioso e querido de Kazan, aquele que trabalhou sem contraintes de qualquer espécie. O resultado é um filme com cerca de 3 horas e uma estrutura vizinha à dos «roman-fleuve» do fim do passado século, divisível em capítulos e centrada num personagem. Se o equilíbrio da obra parece constantemente ameaçado, isso deve-se ao estilo próprio a Kazan em que, como a corda bamba ou a vibração de um nervo, o desequilíbrio se equilibra de per si, por que fugindo aos pontos comuns e tocando perigosamente as extremidades, o autor sabiamente lhes apaga e confunde as referências. Assim, a histeria torna-se calma, a calma histeria etc.
«Les temps est le sens de l avie (sens: comme on dit le sens d’un cours d’eau, le sens d’une phrase, le sens d’une étoffe, le sens de l’odorat)», escreveu algures Claudel na sua Art Poétique.
Se há nos filmes de Kazan um agente primordial, este é o tempo, não como entidade conceptual e abstracta, mas presença corpórea, física, corrosiva e virulenta. Cancerosa. Ao invés de Mankiewicz, por exemplo, cuja arte se articula numa dinâmica do verbo, Kazan tira de uma dialéctica da duração gestual, a razão de ser, o nó-górdio da sua Fílmica (perdoe-se-me o neologismo) , e por que nela a verdade se fecha sobre cada um dos seus instantes, cada instante impele-nos para um todo cuja verdade a eles regressa. «Surge então um universo, uma totalidade, mundo fechado pela necessidade recíproca das suas partes, mas simultaneamente aberto, por que exacto, logo alegórico de todo o complexo social ou orgânico, e espelho deste. Onde o arbitrário anula e dispersa, a lógica e a necessidade libertam» (1).
AMÉRICA AMÉRICA é a história de uma viagem que uma vontade obstinada anima ao ponto de nem por sombras duvidarmos da obtenção dos fins, até pelo sorriso que acompanha a sordidez dos meios. Não era a minha mãe, velha sábia e castigada que fervorosamente, me repetia: «se não lhes puderes cortar as mãos, beija-lhas.»? Trata-se à sua maneira, às avessas de Bresson, de uma ascese alienada dum sentido do eterno, mas que nem por ser de danados, desmente o qualificativo. O trajecto de Stavros, forçosamente inscrito no tempo e na exigência do cumprimento de uma espaço migratório, põe em causa uma certa inviolabilidade da humana condição, condenada a poluir-se, quer moral, na salvaguarda da matéria, como em Stavros, duas complementaridades irredutivelmente separadas de uma totalidade humana com que o desespero, talvez cínico (e clínico) de Kazan não pode pactuar.
Como nenhum outro cineasta ele possui a capacidade de impregnar os corpos de um odor a boeuf écorché (de Rembrandt ou Soutine, tanto faz), de se comprazer quase escatologicamente no visceral, no que o homem imediatamente tem de mais repulsivo, em irmandade com Céline, Gotfried Benn ou Fernão Mendes Pinto e como eles embrenhando na dolorosa pintura da miséria humana. As suas personagens atraem-se ou repelem-se por vias obscuras, instintivas, hereditárias, presos a estigmas embrionários, umbilicais. Segundo creio, está por fazer o estudo (2), ou melhor: a genealogia das estruturas familiares que atravessam a obra de Kazan e das relações, correspondências que ligam as diferentes personagens. Uma se me afigura evidente até à obsessão e reveladora do carácter dúbio e, por vezes incestuoso, que atrás tentei esboçar: é a que se refere ao mito de Abraão (aliás, em Kazan abundam as referências bíblicas), o primeiro patriarca, símbolo de autoridade incontestada que, obviamente, tenta projectar-se no sucessor, criando-o à sua imagem e semelhança. A aliança com um ser feminino, mais velho e experimentado, mas, sobretudo, não vinculado à família, que, duplamente age como elemento protector (substituto da mãe, demasiado sujeita à autoridade do chefe para poder ser mais do que débil e vão medianeiro ?) e iniciador sexual (o sexo sendo um dos tabus do puritanismo familiar), é facto decisivo, se não exclusivo, da emancipação do filho. Daí o conflito entre o velho e o novo, entre o que nasce eo que morre, conflito que provoca a erupção da crise no seio do agregado familiar e mesmo social, minando inevitavelmente o seu devir, a sua sucessão de cronologias. Contrariamente a Nicholay Ray em que, neste aspecto, os valores morais ou socio-políticos são determinantes, em Kazan o fundamental é o orgânico ou o que a ele conduz.
Em AMÉRICA AMÉRICA, Stavros cedo ascende à posição patriarcal: a partir do instante em que abandona a casa, sendo a mulher um meio que concorre para a meta da personagem, é certo, mas sem participar das alegrias da chegada.
Espíritos malévolos trarão à baila histórias antigas; e, se é verdade que elas ressoam em todos os filmes de Kazan, pelo menos a partir de ON THE WATERFRONT, traindo hélas! uma necessidade de auto-justificação, também é verdade que as suas personagens manifestam vis a vis das suas abjecções uma assunção tanto mais grandiosa quanto mais vil é o lodaçal de merda em que se atolam. Santo Kazan!... Ser rei das suas calamidades é um atributo de que poucos se poderiam orgulhar, se disso fosse matéria. Digamos, pois, a «honesta coragem» do salaud confesso que legitima assim, o direito à própria impunidade.
J.C.M.
in O tempo e o Modo, nº 24,
Fevereiro de 1965
1 Jacques Rivette (nº 132 de Cahiers du Cinéma).
2 Sobre este assunto o Alberto Seixas Santos e eu próprio, tencionamos debruçar-nos num estudo crítico sobre a obra de Elia Kazan, a publicar possivelmente nesta revista, se os editores não fizerem questão.
Publicado por blogfloribella às março 25, 2007 08:13 AM
Comentários
se quiseres por algumas cenas de floribella 2 do brasil no teu blog vai a www.youtube.com/watch?v=xr8JUXa7wxc
Publicado por: fxmf às março 26, 2007 07:30 AM
por favor mete no teu blog o video www.youtube.com/watch?v=xr8JUXa7wxc ppppppppppooooooooooooooorrrrrrrrrrrr ffffffffffaaaaaaaaaaavvvooooooorrrrrrrrrrrrrrrr
Publicado por: fxmf às março 27, 2007 07:09 PM
axo muito bem que a floribela recomeçe pk é uma telenovela que muitos portugueses e brasileiros adoraram!!!!!!!!!
gostaria muito de ver novamente a floribela a actuar em cena!
gosto muito dos actores e das actrizes, pk fazem um exelente trabalho , parece mesmo que estão a realizar !
Publicado por: maria às abril 2, 2007 09:10 AM
Entao flor é verdade que tu vais ó cu
Publicado por: D.i.c.a às maio 22, 2007 10:29 AM
Flor tu vais ó you tube é só asneiras hahahah
Publicado por: Sara às maio 22, 2007 10:30 AM
Olá!!! Adoro a floribella!
Espero que esta nunca acabe pois é a melhor telenovela que está a dar a nível de tudo!!!
Adoro muito,muito,muito.muito,muito,muito a Floribella! Sou a fâ número 1 da Luciana Abreu!
Bjs para todos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!..............
Publicado por: Mariana às maio 22, 2007 04:32 PM
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